A semente de virtude de fé é um dom gratuito de Deus para todos os homens

Como vimos no artigo anterior, as virtudes teologais são aquelas que permitem o contato direto com Deus. Por serem hábitos espirituais, necessitam que, num primeiro momento, sejam infundidas no ser humano pelo próprio Senhor. No entanto, esse hábito infuso precisa ser correspondido e aperfeiçoado pelo homem em colaboração com a ação de Deus. A essa comunhão de ações, que visam o aperfeiçoamento das virtudes teologais, chamamos de santificação.

Assim, o homem não pode chegar à santificação se não aprender do mestre que é Deus, pois, segundo São João “todo aquele que ouve o Pai e recebe seus ensinamentos vem a mim” (Jo 6,45). O ser humano, porém, não entra de uma vez nesse ensinamento, pois, para ele isso é impossível (…). Esse processo completo foi descrito na série Caminho Espiritual ou Moradas.

Se, por um lado, Deus infunde as três virtudes teologais no Batismo ou quando se recupera o estado de graça (por meio da confissão dos pecados mortais), o desenvolvimento dessas virtudes pelo homem seguem a ordem crescente de: primeiro, a fé; depois, a esperança; e, só então, a caridade. Santo Tomás de Aquino explica que isso acontece porque aquele que provoca a fé (Deus) age do mais perfeito para o imperfeito, infundindo a caridade que contém a esperança e a fé.

Porém, naquele que recebe a fé, ou seja, na matéria (o homem) onde a fé é infundida, a ordem correta é que o imperfeito seja aperfeiçoado na construção até a chegada do perfeito (ST II-IIQ1A7). Desse modo, como na ordenação da natureza, a perfeição da  é conseguida a partir do próprio movimento do inferior para o superior, e por meio do movimento do superior que eleva o inferior (ST II-IIQ2A3).

Essa semente de virtude de fé, é um dom gratuito de Deus para todos os homens, conforme diz Santo Agostinho ao falar sobre a oração: “Deus dá algumas graças, como o começo da fé, mesmo aos que não pedem; outras, como a perseverança, reservou para os que pedem.” É o pequeno grão de mostarda do evangelho (Mc 4,31) que, com cuidado, esforço e perseverança, pode tornar-se uma grande árvore.

É nesta dinâmica de crescimento que a fé aperfeiçoa o intelecto humano (ST II-IIQ1A3), dando-lhe a capacidade de ver as verdades que superam a razão do homem por não lhes ser evidentes (ST II-IIQ2A3). Essa capacidade sobrenatural, dada gratuitamente por Deus (Ef 2,3), chama-se “fé” e permite compreender “muitas verdades que estão acima do espírito humano” (Ecl 3,25). A maior parte dessas verdades sobrenaturais só podem ser conhecidas se reveladas por Deus e, a isso, chama-se revelação.

Segundo São Paulo, Deus não somente existe, como recompensa aqueles que o procuram (Hb 11,16). A revelação é a recompensa com que Deus presenteia o homem com o conhecimento de Si mesmo, que irá gerar a Sua posse eterna.

Deus fornece a virtude da fé para que, o ser humano, possa conhecer a revelação verdadeiramente e, cada vez mais, profundamente. Esse conhecimento, em parte, poderia ser adquirido pelas ciências humanas, mas Santo Tomás objeta que existem três motivos pelos quais isso não seria adequado (ST II-IIQ2A4).

O conhecimento filosófico, que permite ao homem compreender que Deus existe, precisa de muitos anos para ser desenvolvido e pressupõe vários outros conhecimentos anteriores. A revelação faz com que o homem chegue mais rapidamente ao conhecimento da verdade divina e acrescenta coisas que nunca poderíamos acessar pelo uso da razão natural.

Como muitos poderiam não ter a capacidade mental para o estudo filosófico ou estar ocupados demais com outros afazeres, a revelação é dada para que o conhecimento de Deus seja mais generalizado e pleno. E a virtude da fé é dada para que se possa corresponder e ter posse desse conhecimento.

Para que não houvessem dúvidas a respeito da verdade, Deus revelou o que devemos crer. Se esse conhecimento fosse adquirido pelo esforço dos homens, muitos erros e interpretações equivocadas poderiam ocorrer. Só Deus, que não pode mentir, pode promover segurança sobre as verdades de fé.

As verdades imateriais reveladas por Deus, só podem ser vistas à luz da fé. É ela que faz ver aquilo que se crê (ST II-IIQ1A4), embora o que se crê não se possa ver com os olhos naturais (ST II-IIQ1A5). A virtude da fé permite que os fiéis tenham conhecimento da fé não demonstrativamente como propõe o conhecimento científico moderno, mas de dois outros modos: persuasivamente, mostrando não ser impossível o que a fé propõe; ou por meio dos princípios de fé, isto é, da autoridade da revelação nas sagradas escrituras, da tradição e do magistério da Igreja.

Por essa característica de indemonstrabilidade das verdades da fé, é necessário o assentimento intelectual daquele que crê ao que é revelado por Deus ou se refere a Deus (ST II-IIQ1A1). Em outras palavras, como sintetiza Santo Agostinho: “ninguém crê a não ser que queira”. Mas, embora ninguém possa ser coagido a crer, recebendo uma obrigação de crer sem assentimento da vontade, pois a fé é voluntária e existe uma obrigação de crer por necessidade de fim. E, desse modo, Paulo diz aos Hebreus que aquele que se aproxima de Deus deve crer e, sem fé, é impossível agradar a Deus (ST II-IIQ1A6).

Esse início da virtude da fé, a que Santo Tomás chama de fé informada (sem forma madura ainda) trafega entre estas várias realidades: precisa ser dada em gérmen por Deus para que o homem tenha acesso ao espiritual, não pode ser dada plenamente como certeza para que exista uma adesão livre do ser humano. Precisa ser desenvolvida, como hábito pelo homem, em comunhão com a ação de Deus que, gratuitamente, a fornece para que gere as bases da virtude da esperança.

No próximo artigo veremos como a virtude da fé pode (e deve) crescer cada vez mais, aumentando o conhecimento da revelação e a união com Deus.