Doutrina Social da Igreja: o agir libertador de Deus

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja é um documento elaborado para ser um resumo completo do ensinamento social da Igreja Católica Apostólica Romana. Por ele, cumpre-se a missão evangelizadora de ensinar e difundir a doutrina social, preceito ativo da mensagem cristã. Essa doutrina propõe uma influência direta na vida da sociedade e exige um trabalho diário na luta pela justiça no testemunho de Cristo Salvador, como fonte de unidade e paz. O conhecimento da Doutrina Social nos permite vivenciar as novas situações que o avançar dos anos nos propõe, sem perder ou fragilizar a dignidade da pessoa humana.

O mundo moderno – tecnológico, conectado, próximo e rápido – necessita de uma evangelização que acompanhe essas mudanças, sobre a qual se deve acrescentar o anúncio da Doutrina Social da Igreja, tão aplicável aos dias de hoje para indicar as respostas aos grandes desafios diários da vida cristã em sociedade. Isso porque não há outro caminho para lidar com as questões sociais que não o Evangelho, até mesmo para os “problemas atuais”, é possível encontrar a solução justa e fiel.

O agir libertador de Deus

Na busca por nos apontar um caminho santo que possa se aplicar a todo momento da vida e adaptar-se às mudanças sociais, necessário foi o reconhecimento da regra de ouro: “Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles” (Mt 7,12). O Evangelho segundo São Mateus transmite diversas recomendações sobre a conduta que devemos ter como discípulos de Cristo. Ao ensinar essas lições, Jesus utiliza a vós passiva, para indicar que Deus utilizará dos nosso próprio juízo para avaliar nossas ações. Ou seja, a misericórdia divina e a consciência de nossa imperfeição nos permite um julgamento de acordo com a intenção de nossas ações. Por isso, rezamos: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Partindo dessa regra de ouro, em toda experiência religiosa deve-se reconhecer a proximidade gratuita de Deus por dois pontos de vista: origem daquilo que é, e a medida do que deve ser. Primeiro, Deus se apresenta como a origem daquilo que é, como presença que nos garante as condições básicas da vida: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,34).

Depois, reconhecendo-nos merecedores das bênçãos de Deus para aquilo que nos é essencial, faz-se necessário assumirmos o papel ativo de discípulos, usando do bem que nos foi concedido em benefício do outro. A caridade é a medida do que deve ser, porque nossa participação na luta pelo bem-estar social é cobrada na medida em que Deus nos dá as condições: “Portanto, todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será pedido; a quem muito confiado, dele será exigido muito mais!” (Lc 12,48).

Assim nos ensina o Compêndio da Doutrina Social da Igreja: “Desse processo de interiorização derivam maior profundidade e realismo para o agir social, tornando possível a progressiva universalização da atitude de justiça e solidariedade, que o povo da Aliança é chamado a assumir diante de todos os homens, de todo o povo e nação”.

Princípio da criação e agir gratuito de Deus

Afirmar, no Credo, que Deus é criador não significa exprimir somente uma convicção cristã do Gênesis, mas perceber o agir gratuito e misericordioso do Senhor em favor do homem, que dá a vida a tudo aquilo que existe. Diz o Compêndio: “O homem e a mulher, criados à Sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26-27), são por isso mesmo chamados a ser o sinal visível e instrumento eficaz da gratuidade divina no jardim em que Deus os pôs quais cultivadores e guardiões dos bens da criação”.

Desejar afastar-se do Criador é renunciar à presença e misericórdia d’Aquele que tudo nos concedeu gratuitamente. Romper a relação com Deus é desconectar-se do interior da pessoa humana, da relação com o próximo, com todas as criaturas e com a própria vida. Com efeito: “Desobedecer a Deus significa furtar-se ao seu olhar de amor e querer administrar por conta própria o existir e o agir no mundo” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja). E é no impulso por essa ruptura que devemos entender as mazelas que atingem nossa sociedade, atentam contra a dignidade da pessoa, contra a justiça e a solidariedade.

Uma doutrina social para o dia a dia

É bem verdade que a sociedade tem caminhado com relevantes mudanças sobre o que é certo ou errado. Mas os ensinamentos de Jesus Cristo, que fundamentam a vida do cristão, seguem firmes em uma doutrina universal e salvadora. Vale até repetir a regra de ouro: “Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles” (Mt 7,12), para lembrarmos da compaixão e do amor ao próximo, do amor Ágape que Jesus nos ensinou. Tomemos essa verdade para nossa vida, para que possamos seguir nosso firme propósito de ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14).

REFERÊNCIAS

BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB, 18 ed. Editora Canção Nova.

JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Centesimus Annus. Dado em Roma em 01 de maio de 1991.